Foto di Arthur de Faria & Seu Conjunto

Blog di Arthur de Faria & Seu Conjunto

  • Maturidade e estilo num disco brilhante

    Música pra Bater Pezinho, quarto disco de Arthur de Faria & Seu Conjunto, me fez lembrar os bons tempos do Tropicalismo. Há criatividade contagiante, música sem fronteiras, força poética, respingos vanguardistas e antropofagia. Parece até que o maestro Rogério Duprat e Os Mutantes mandaram eflúvios para os rapazes. O Tropicalismo feneceu há 35 anos, mas como seu código genético está vivo na música brasileira não seria fora de propósito atribuir a Arthur a influência, da mesma forma que para ele não seria demérito reconhecê-la, muito pelo contrário.

    Mas na verdade não se trata disso. Arthur não é um tropicalista póstumo e sim um músico e líder que desde o início da carreira, há 15 anos, trabalha na direção de uma música que abranja várias músicas, um conceito que reúna também vários. Ele sempre esteve em busca de um estilo e sempre soube onde NÃO procurá-lo. No resto, valia tudo, de Stravinsky a Black Sabbath, de Jobim a Björk, Beatles, Radamés, Zappa, Almôndegas, Pink Floyd, Tom Waits, Thelonius, Piazzolla, Nino Rota, Chico, Caetano, Arrigo Barnabé e tal.

     

    Foi com Arrigo que se deu o primeiro estalo sério, aos 12 anos (!), ao ouvir o disco Clara Crocodilo, de 1980: "Resolvi entrar para a Escola de Música da Ospa para entender o que era aquilo". Tinha 16/17 ao descobrir as milongas e começar a compor. Em 1990/91, quando integrou o Bando Barato pra Cachorro, o tema era a música brasileira dos anos 30. Em 1994 nasce Arthur de Faria & Seu Conjunto e em 96 sai o primeiro CD, Música pra Gente Grande. Depois, Flicts (98) e Meu Conjunto tem Concerto, com a Orquestra Unisinos (2002).

     

    Como acompanhei de perto essa história, hoje posso dizer que, com Música pra Bater Pezinho, Arthur chega à maturidade musical e à definição do estilo. Tudo está fechadinho: o repertório, os arranjos, a gravação, os convidados e, claro, o Conjunto. Os convidados formam uma turma da pesada: os paulistas Cida Moreira e Maurício Pereira (ex-Mulheres Negras), o pernambucano Siba (do Mestre Ambrósio), os mineiros Fernanda Takai e John Ulhôa (do Pato Fu), o poeta paranaense Marcelo Sandmann, os gaúchos Marcelo Delacroix, Nino Nicolaiewsky e Fernando Pezão.

     

    Sobre o Conjunto, diz Arthur: "Não é por acaso que a gente se achou e gosta de tocar junto; fizemos um disco de banda mesmo, todos palpitaram". Certo. São brilhantes os desempenhos de Sergio Karam (saxes), Adolfo Almeida Jr (fagote), Julio Rizzo (trombone), Marcão Acosta (guitarras), Clóvis Boca Freire (baixos) e Ricardo Arenhaldt (bateria, percussão). E o próprio Arthur em piano, teclados, violão etc. Uma orquestra. Fazendo, além do melhor, seu disco mais fluente (pop?).

     

    Pois é, pop. Mas MPB, samba-canção, milonga, chote, reggae, jazz, bolero, rock, erudito etc. Um Teco-Teco Amarelo em Chamas, com Maurício Pereira, é um fox, digamos, surrealista. Na bela As Coisas da Casa serpenteia a rabeca de Siba. Intrincada, BR-0 usa a guitarra em riffs de heavy-metal para sublinhar versos rapeados como "Não há free-ways em minhas veias / Tenho picadas, tenho becos, tenho poços". Breve Oração de Virada do Ano, sobre poema de Daniel Galera, tem Cida Moreira cantando.

     

    Rajadas de ska decoram a Milonga da Moça Gorda com melodia grudenta e Delacroix repetindo "êo-êo, êo-êo" ("É o mais próximo que eu consigo chegar de um refrão", diz Arthur). Revisitação, sobre poema de José Paulo Paes, é tensa, a guitarra distorce algo que se parece com milonga. Será Que é Disso Que Eu Necessito?, dos Titãs, evidencia fagote e trombone num rock de clima circense e metálico. Sexo na Cabeça, crônica de Luís Fernando Veríssimo musicada, tem acordeom no candombe experimental.

     

    Em Tu e Eu, Arthur faz divertidos trocadilhos: "Eu, Chico / Tu tá Caetano / ... / Tu, Coca / Eu cá com Pepsi / Tu, juana, / Eu enjoei / Tu bailas / Eu já dancei". Com mais humor e a voz linda de Fernanda Takai, Um Tango é um bolero pra dançar, feito os antigos conjuntos melódicos. Ainda humor sardônico em Xote Sem Saco, que também é um reggae. As três faixas instrumentais são as maravilhosas Suíte do Estrangeiro I e II e Polka Pula, nas quais o Conjunto quebra todas, enfatizando sua qualidade e integração. Vai daí que eles arranjaram um problema: vai ser difícil fazer melhor.

     

    Juarez Fonseca – Jornal ABC Domingo

    - 2005
  • Coisas Bonitas e Coloridas - Que já escreveram sobre a gente

    Coisas bonitas e coloridas que já escreveram sobre a gente:

     

    "Uno de los secretos mejor guardados de la musica brasileña atual (...) una serie de canciones inclasificables en las que se cruzan saxos, acordeones, cuerdas y palabras".

    Sebastian Exposito, jornal La Nación, Buenos Aires, Argentina, 19 de junho de 2005

     

    "A despeito do título, Música Pra Bater Pezinho, (...) não é para qualquer bailarico. Calcado na ironia tanto poética quanto musical (...), o CD acumula surpresas, (...) vadeia gêneros (...) e calibra a salada estilística que evoca do canto falado do Grupo Rumo à babel do Karnak. Humor fino e música densa."

    Tárik de Souza, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, Brasil, 09 de junho de 2005

     

    "Chegam ao ponto exato de maturação. (...) As combinações se equilibram, as ousadias vêm com certeza, o desempenho instrumental é de time campeão. (...) A música ganhou em sofisticação (...) dialoga com vanguarda e tradição ao mesmo tempo (...) É uma orquestra experimental, um conjunto melódico, um combo de jazz, uma bandinha alemã.(...) Como os tropicalistas antropofágicos fizeram nos anos 60. (...) Arthur é nosso Rogério Duprat. (...) São faixas como estas que dividem épocas(...) delimitam o melhor que temos".

    Juarez Fonseca, revista Aplauso, RS, Brasil, Abril de 2005

     

    "Que troço bom! (...) Não apenas uma impressionante exuberância técnica, a excelência da gravação; é também pela filosofia ali contida. (...) Um disco que convida o ouvinte a mergulhar na mais profunda das águas da música popular. (...) Uma intensa mobilização da nossa inteligência. Não perca."

    Luís Augusto Fischer, Jornal ABC Domingo, RS, Brasil, 27 de Março de 2005 

     

    "Humor inteligente, versos bem elaborados, ligações com a poesia, canções bem feitas e bem tocadas. (...) O conjunto (...) é composto de excelentes músicos. (...) É seu disco mais diversificado, mas nem por isso menos coeso."

    Lauro Lisboa Garcia, jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 de Março de 2005

     

    "O grande gosto de ouvir Los Hermanos me devolveu ao mais recente disco de Arthur de Faria & Seu Conjunto, Música pra Bater Pezinho, que é melhor que os discos dos cariocas. (...) É existencialmente mais maduro, (...) freqüenta águas mais profundas e exigentes. (...) É a ironia, essa suprema virtude da inteligência, (...) visão de mundo que depende de um ângulo adequado para olhar para a vida – o olhar de viés, de banda, de revesgueio. (...) o alcance da conversa vai correr no leito da vida adulta, sem concessões, (...) Para o Arthur, a música (...) nunca é um mero produto de mercado. (...) Ali está também a voz do Arthur cantando/dizendo que não é todo dia que a gente agüenta o triste espetáculo humano".

    Luís Augusto Fischer, jornal Zero Hora, jornal Zero Hora, Porto Alegre, RS, 22 de Março de 2005.

     

    "Música pra Bater Pezinho (...) me fez lembrar os bons tempos do Tropicalismo.criatividade contagiante, música sem fronteiras, força poética, respingos vanguardistas e antropofagia. (...) Tudo está fechadinho: o repertório, os arranjos, a gravação, os convidados e, é claro, o Conjunto. (...) São brilhantes os desempenhos (...) Fazendo, além do melhor, seu disco mais fluente. Pop? Pois é, pop".

    Juarez Fonseca. Jornal ABC Domingo, RS, 20 de março de 2005 

     

    "Um bom sinônimo para o CD (...) é maturidade. (...) um disco que investe tanto na letra quanto na melodia, tanto nos arranjos quanto no conceito. É como se Arthur e seus companheiros batessem o pezinho e reivindicassem que as fronteiras são inventadas pelo mercado, que a música pode ser de qualidade e, ainda assim, boa o suficiente para bater pezinho. (...) um conjunto de canções, não de propostas, sem perder a qualidade do "texto" das músicas".

    Renato Mendonça, Jornal Zero Hora, RS, Brasil, 2 de março de 2005

     

    "Imagine um polvo, um polvo gaúcho. (...) Seus tentáculos alcançam rapidamente sonoridades tão diferentes umas da outras que é impossível definir em qual gênero se encaixa (...) e esse ecletismo não é um clichê qualquer. Estão lá, (...) jazz, Arrigo Barnabé, rock, Frank Zappa, fanfarra, Tom Jobim, música erudita, Björk, tango, MPB, pop, Radamés Gnatalli, Beatles, eletrônico, Black Sabbath e outras bossas e milongas".
    Dafne Sampaio, jornal Folha de São Paulo, São Paulo, Brasil, 08 de Fevereiro de 2005

     

    "Cabe de tudo no caldeirão sonoro deste álbum, de reggae, xote e forrós a tango e MPB, tudo temperado com certo bom humor e uma boa dose de nonsense.".

    Revista MTV, fevereiro de 2005

     

    "A música de Arthur de Faria são muitas em uma só. Tem jazz, tango, rock'n'roll, Hermeto Paschoal, canções, pop, Egberto Gismonti, Mutantes e outras mil músicas. Tem muitos humores também, principalmente os bons"
    Site Gafieiras.com, fevereiro de 2005

     

    "Ele musicou poesias, buscou Piazzolas, Hermetos e Egbertos. E fez um som muito divertido."

    Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, fevereiro de 2005

     

    "Música pra Bater Pezinho começa e termina com o ruído característico das velhas vitrolas, mas o anacronismo pára por aí: guitarras distorcidas e elementos da música pop demonstram a busca cada vez maior do grupo por uma sonoridade moderna".

    Site da Revista Aplauso, RS, Brasil, fevereiro 2005

     

    "Conhecida figura do Rio Grande do Sul, ídolo de muitos músicos, (...) Arthur de Faria consegue, com seu Conjunto, a façanha de combinar arranjos orquestrais elaborados com a mesma criatividade e irreverência de sempre. O resultado é uma espécie de Carla Bley dos pampas, um híbrido de experimental com acessível que deve ser escutado obrigatoriamente".

    Site Tratore

     

    "Todo arranjador deste país devia ter uma foto desse cara pregada no quarto. Ninguém nesta terra, mas ninguém mesmo, trabalha com orquestra deste jeito. É livre, leve, solto, sem pompa, sem ranço de "pesquisa". É engraçado, pirado, comovente e arriscado, tudo ao mesmo tempo. E sem forçar a barra do experimentalismo."

    Maurício Bussab, Site Tratore

     

    "Mesclando elementos de jazz, música de vanguarda e uma base sólida da boa e tradicional música brasileira, o (...) conjunto pode ser definido pelo título do disco de estréia deles: Música pra Gente Grande (...) As influências (Piazzola, Radamés Gnatalli, o uruguaio Leo Masliah) continuam presentes e admitidas (...) por um time de primeira (...) Ouvir a música de Arthur de Faria & Seu Conjunto é mais que um exercício auditivo. É aceitar suas deliciosas provocações estético-musicais".

    Jimi Joe, jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil, 21 de Outubro de 2002

     

    "Me impressionou seu estilo de vanguarda na medida certa. (...) 

    Em El Alba, da Suíte Com Vista Para o Prata, com um solo de fagote anarcoexpressivo (...) um esguio arranjo de cordas vem atestar o Arthur como gênio. (...) Jobiniano e ao mesmo tempo Arriguiano (...) Arthur (...) mereceria estar lá no tal eixo Rio/SP, ao lado dos grandes compositores do berço esplêndido, mas não sei se ele quer. Aqui nos Estados Livres do Prata ele é um dos pioneiros, assim como Vitor Ramil, a impor à geografia o seu talento.".

    Saulo Wanderley, site Café Music, 12 de Setembro de 2002

     

    "Arthur gosta de uma atitude provocativa (...) a ironia, a blague, surfando em ondas inusitadas para chamar a atenção, para desacomodar o ouvinte. (...) Com a matéria prima da cultura popular (...) da Grande Comarca do Pampa, Arthur levou os ritmos (...) para passear num parque de diversões adulto, animado por (...) feras do porte de um Clóvis Boca Freire, de um Sérgio Karam, de um Adolfo Almeida Júnior.".

    Luís Augusto Fischer, jornal ABC Domingo, Rio Grande do Sul, Brasil.

     

    "Se, por uma dessas loucuras humanas, Arthur de Faria decidisse hoje, aos 33 anos, interromper sua carreira (...) já teria assegurado um lugar de destaque na história da música no Rio Grande do Sul. De pouquíssimos, com essa idade, se pode dizer isso (...) Não sei onde poderá chegar, pois o tempo que tem pela frente é enorme."

    Juarez Fonseca, jornal ABC Domingo, Rio Grande do Sul, 31 de Março de 2002.

     

    "Mezcla de elementos de jazz y música de vanguardia con una sólida base de buena y tradicional música brasileña".

    Programa do IV Festival Internacional de Buenos Aires, Argentina

    "Poucas vezes valeu tanto a pena sair de casa como para assistir o show do Arthur de Faria & Seu Conjunto no Theatro São Pedro. (...) É música para gente que gosta de desafios, de pensar.".

    Marcelo Träsel, fanzine virtual CardosOnline, Porto Alegre, 7 de dezembro de 2000

     

    "Arthur de Faria finden sich Mitglieder des klassischen Symphonieorchesters der Stadt Porto Alegre ebenso wie Hardcore-Jazzer, Folk- und Rockmusiker. Der Sound (...) ist von den Jazzbands des Porto Alegre der 20er Jahre inspiriert, die aus der Mischung der musikalischen Traditionen der italienischen, deutschen, jüdischen und portugiesischen Einwanderer entstanden waren".

    Wuk Magazine. Viena, Áustria, fevereiro de 2000

     

    "Sem o estilo normal e formal dos espetáculos musicais, Música Pra Gente Grande faz uma divertida passagem por diversos gêneros, chegando a ser contemporâneo e bufo ao mesmo tempo. (...) Longe dos shows comerciais e pasteurizados, Arthur de Faria & Seu Conjunto fazem Música pra Gente Grande."     

    Jornal VS. São Leopoldo, primeiro de outubro de 98

     

    "(O disco é) acustico y fresco.(...) Bien grabado, limpio, prolijo, y, lo que es mas dificil en una grabacion... con mucho swing (...) Como toca el saxofonista Karam! Realmente. (...) El bajista Boca Freire tambien me quemó la cabeza."

    Elbio Barilari, crítico de música do La Raza Newspaper, jornal de língua espanhola em Chicago, setembro de 98

     

    "O resultado, simples/complexo, é marcado por fino humor. (...) Tenho uma boa quilometragem em crítica musical e, escudado nela, ouso dizer que não há no Brasil nada parecido com o trabalho de Arthur de Faria & Seu Conjunto".

     Juarez Fonseca, crítico, revista Sucesso CD. São Paulo/Rio de Janeiro, março de 98

     

    "O critico mais conceituado de Praga, (...) se esvaiu em adjetivos(...). Confessou que nunca tinha ouvido um repertório tão variado num mesmo disco, ainda mais com a panacéia de influências aparentemente incompatíveis - como o jazz e a polca, a valsa, baião etc. (...) O show foi um sucesso. (...). Arthur foi recebido como gênio inovador, que utiliza o que nossa tradição tem de melhor, mas mixa de forma diferente."

    Fabiano Golgo, direto de Praga, para o jornal ABC Domingo. Grande Porto Alegre, 15 de fevereiro de 1998.

     

    "Arthur de Faria & Seu Conjunto fazem uma música de câmara elegante, singela e refinada"

    Concerto Magazin. Viena - Áustria, fevereiro de 1998.

     

    "Música para gente adulta, mas sem dúvida, muito bem-humorada e nada aborrecida. Arthur de Faria & Seu Conjunto fazem música brasileira num clima Eric Satie. É o show do mês."

  • Ser Músico no Rio Grande do Sul

    Me solta!...

    Ser músico no Rio Grande do Sul é debater-se entre duas grandes questões (ou, vá lá, ignorá-las - como o faz o pessoal do rock gaúcho do terceiro milênio, que finge que está na Londres em 1973).

    A primeira aparece já no Partenon Literário, final do século XIX, primeiro momento local do que o Antônio Cândido chamaria de "sistema": gente fazendo arte com meios para reproduzi-la e consumidores. Qual a grande questão dessa geração? O que nos faz gaúchos.

    Oitenta anos depois, no Pós-Guerra, para reagir à americanização do mundo nasce o MTG, Movimento Tradicionalista Gaúcho. Que foi fugindo da sua idéia original e se transformando num misto de religião e franchising reunindo hoje oito milhões de afiliados em milhares ..Gs, os Centros de Tradições Gaúchas. Os quais, a pretexto de proteger do mundo mau lá fora, praticamente liquidaram com toda e qualquer manifestação espontânea de música tradicional do Rio Grande do Sul.

    Aqui, hoje, ao contrário do que acontece com as músicas de raiz de Santa Catarina pra cima, tudo é oficial. Além do MTG (www.mtg.org.br), existe o IGTF - Instituto Riograndense de Tradição e Folclore (www.igtf.rs.gov.br). E ambos se dedicam a questões essenciais debatidas em congressos anuais. Como: "Homem de brinco pode dançar em CTG?"*.

    O resultado é que nossa música de raiz ficou regrada até a última minúcia, avessa a modernidade, e realizada basicamente intra-muros, dentro das sedes dos CTGs – cujos diretores são, não por acaso, chamados de "patrões".

    E aí a chamada "música urbana".

    Entre os anos 00 a 30, diferentes imigrações criaram gêneros esquecidos como a "valsa porto-alegrense". Aí, a partir de Getúlio Vargas, da Rádio Nacional e da idéia de uma nação unificada, o que se fez pelos 40 anos seguintes foi copiar as matrizes da chamada "música brasileira". Que, como se sabia até bem pouco tempo, era aquela coisa que se fazia no Rio e na Bahia.

    Então é só nos anos 70 que se tenta (pegou?) uma nova síntese raiz-antena entre regional, urbano e universal. Esse é um estado roqueiro de primeira hora, com mil bandas já em 1966. E aí grupos como o Pentagrama, Em Palpos de Aranha ou os pelotenses Os Almôndegas fizeram o óbvio: cruzar Beatles, folk e folk-lore gaúcho. Dessa fase, os primeiros discos dos Almôndegas ainda tem um frescor impressionante  (http://cogumelomoon6070brasil.blogspot.com/2006/08/almndegas.html).

    A partir deles (de onde, mais tarde, saiu a dupla Kleiton & Kledir Ramil, também fundamentais, já nos anos 80), compositores como o uruguaianense Bebeto Alves ou o irmão caçula dos Ramil, Vitor, correram por fora atrás da síntese universal dessa música meio gaúcha, meio argentina, meio uruguaia.

    Foram desprezados e/ou ignorados pelos CTGs e MTGs. Mas seguiram suas carreiras com discos fundamentais. Bebeto Alves (www.bebetoalves.com.br) atinge sua obra-prima no recente "Blackbagualnegovéio". Vitor Ramil (www.vitorramil.com.br) tem o seu "Ramilonga" como um marco absoluto do conceito que ele redigiu, vale procurar (é encontrável na internet e em livro), e se chama "Estética do Frio".

    Mas, voltando aos anos 80, enquanto o rock gaúcho efervescia, surge um fenômeno gerado dentro dos CTGs e criado no meio da enxurrada de festivais nativistas e regionalistas (chegaram a ser quase uma centena por ano): Renato Borghetti, o Borghettinho (www.renatoborghetti.com.br).

    O cara era cabeludo, bonito, tímido, usava bombachas sem botas, e fazia com sua singela gaita de botão uma música espetacular. Num primeiro momento, tradicional, mas logo incorporando outras linguagens. Esse exército-de-um-homem-só fez quase tudo. Em um par de anos, o que antes seria ridicularizado virou quase obrigatório: chimarrão com garrafa térmica, bombachas com tênis e camiseta, vinho barato em acampamento de festival. Até Luís Fernando Veríssimo criou o seu "Analista de Bagé" nessa onda neo-regionalista – que, como se vê, é um muitíssimo mais recente do que se possa imaginar.

    Borghetti ganhou o mundo, tem carreira consolidada na Europa, mas NÃO gerou uma febre de seguidores. Só no terceiro milênio surge um grupo que vai adiante no que Renato propôs: o Quartcheto (www.quartcheto.com.br). Ninguém mais teve coragem de arriscar o dim-dim certo nos bailes e discos regionais que repetem as mesmas fórmulas.

    Afinal um dos únicos mercados que movimentam grana real e geram empregos estáveis na música do Rio Grande do Sul é o da música regionalista: feita ou não para dançar, "pura" ou "tchê music" (gênero proibido de entrar em CTGs). Além desse mundo, nem o do pop-rock se sustenta mais. A única concorrência são as "Bandas": uma universo paralelo que mistura bandinhas de sopros alemãs com Jovem Guarda. E tem duas revistas especializadas mensais, milhões de fãs nos bailões da região sul, mas "ninguém" conhece.

    Pra completar o "vistazo", a gente ainda poderia se concentrar em outra raiz-antena: a do rock gaúcho que tenta a impensável fusão de duas "guardas": vanguarda e a Jovem Guarda. Graforréia Xilarmônica, Aristóteles de Ananias Jr, Júpiter Maçã, Wander Wildner, Frank Jorge... Mas, desgraça,  isso é já é assunto pra outro artigo. Agora saiam clicando.

    Arthur de Faria 

    *Não, não pode. Claro. Se quiser usar brinco, não tem problema, é só tirar antes. Que é que custa? 

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